Conto: A menina do poço
- Dime

- 7 de set. de 2019
- 5 min de leitura
Atualizado: 27 de nov. de 2019
Olá, meus queridos citados e citadas. Esse é um dos contos que escrevi que mais gosto. A menina do Poço é um conto de terror psicológico escrito por mim (Dime) em 2016.
A garota do Poço
Você cai em um poço. Seus olhos estão tão assustados que não liga para a dor da fratura exposta no seu antebraço direito. As bordas do seu vestido estão sujas, mas não de barro. De medo. Você tenta se levantar, mas tudo que consegue é um soluço agudo de agonia e desprezo. Que maravilha! O dia não poderia ter ficado pior. As vozes das meninas enjoadas da escola ecoam em sua mente de uma forma que a força olhar para a fratura exposta. Espasmos. Em sua volta, você não enxerga nada além de escuridão. Mas por que o seu corpo você enxerga tão claramente? Como se ele estivesse sobre a luz de holofotes musculosos da cor do time de futebol da escola. Como lidar com a dor? A dor da fratura, da caída, há quem diga. Recaída. Você está, neste momento, na solidão de um poço de agonias. Quem poderia salvar-te? Alguém viu a sua queda? Seus amigos a viram voltar para casa, ou poderiam ter encoberto. Nada disso. Você está em um poço. Não somete nele, mas, no fundo dele. Como lidar? Os vermes rastejam perto do seu corpo vulnerável ao chão. Seus medos saem do cofre. Baratas são tão nojentas! Os ratos ainda não se revelaram, mas você sabe que não vai demorar muito até que eles cheguem para roerem o seu vestido. Quanto tempo você aguenta aí, menina? Quanto tempo até alguém sentir a sua falta? A sua foto iria para os telejornais? A grande emissora faria de seu sofrimento um ganha pão? Espasmos e mais espasmos. A medida que o tempo passa, a fome aperta, a mente deserta e os medos escapam. Como você odeia isso, não é? Você não queria pensar neles, mas já que está aí mesmo, na solidão de um fim de poço, sem ao menos poder se mexer para não agravar a fratura exposta. O único jeito é pensar. Mas não havia coisas boas para pensar. Não se pensa em coisas boas quando você está no fundo do poço. Não sem ajuda. A ajuda que ela não tinha e nem contentar-se-ia a ter. Então, não havia como evitar que os medos escapassem de suas entranhas e circulassem na área da pequena circunferência que tu caíste. Os medos eram muitos, mas, muitos você comprimiu e reprimiu. A tristeza vem logo atrás. O sentimento que te domina muito fácil e a faz querer chorar. Como se chorar fosse te tirar do fundo do poço! Com a borda do seu vestido você limpa as suas lágrimas e, então, a borda se suja de tristeza também. Naquela caída, você teve mais recaídas do que poderia imaginar. Como estaria as coisas lá em cima? Já devem ter sentido a sua falta. Ou talvez não. Claro que você pensa que não. Contente-se com você e a si mesma, pois esta noite você está sozinha em um poço escuro. Sem expressão, você olha para o canto direito, de soslaio, e lembra dos ratos. Os ratos já virão roer o seu vestido. Agora que ele já está manchado de tristeza também, eles vão ficar mais saciados. Medo. Pela primeira vez você sentiu medo dos ratos. Eles são cruéis e não escutam seus pedidos de afastamento. Eles querem roer o seu vestido de qualquer jeito, menina. E não há para onde correr. Com a fratura exposta, com a caída no poço, com o medo e agora o espanto, você não consegue nem ao menos mudar de lugar. Sim. Você poderia ter se movido e sentado do outro lado. Olhar para uma parte diferente do poço, quem sabe para cima, mas você ficou com medo. Medo de agravar a fratura e.... Espasmos. Como lidar? Você precisa fazer alguma coisa, menina. Caso contrário, morrerá aí, sozinha. Você quer morrer? Sozinha? Você reflete sobre as perguntas. Por que fazer duas frases em vez de uma só oração? Talvez, você queira repensar sobre a companhia que escolhera para esta noite. De qualquer forma, você pensa na morte. Como não pensar? A morte seria o seu bombeiro que te tiraria do poço, mas você sabe muito bem que esse bombeiro não conseguirá apagar as chamas do fogo do inferno em que você caíra. Neste momento, você clama misericórdia para o deus que tu acreditas. Acreditas mesmo? É melhor você pensar em algo. Sua foto não está circulando nos grupos de mensagens, muito menos nos telejornais. Quem é você? Alguém sabe, você sabe? Agora, você começa a se perder em você mesma. O vento gélido invade o poço e você se arrepia de frio. O frio que congelou seu coração e a fez cometer erros que a forçaram a cair sem ao menos ter a oportunidade de reduzir a queda ou segurar em algo para evitar a fratura. Espasmos. Quanto mais o tempo passa, mas distante você fica do topo do poço. Quanto mais distante do topo do poço, mas distante de si mesma você fica. Como lidar? Você sabe muito bem que não vai demorar a acontecer. Bem que as vadias da escola lhe avisaram. No fundo elas tinham um bom coração. A voz da razão emerge em sua cabeça. Como lidar? As vadias, os ratos, os holofotes, o medo, a tristeza, o frio, a solidão, o espanto, a morte. Tudo sufoca. Tudo sufoca. O sufoco apertado em suas mãos, lhe escorreram pelos dedos. Espasmos. Você grita pela primeira vez dentro do poço. Poderia ter feito isso antes, claro que poderia. Mas antes e durante a caída você não sabia que podia falar, não sabia que tinha voz, mulher não costuma ter voz diante dos holofotes e dos ratos, você não sabia que podia gritar. Você respira pela primeira vez nesta noite. Era tão bom gritar, não era? Será que alguém lá em cima escutou a sua voz? Era difícil saber. Ninguém reconhece uma voz que nunca se pronunciou antes e você não tinha mais tempo de aquecer a sua voz para o grande confronto. E então voltamos à estaca zero. Não sei se posso continuar com isso. Você pode? Acredito que também não. Não queria te abandonar, menina, mas o seu caso não tem solução. Você já parou alguma vez para pensar nos problemas que te cercam? Eu estou ficando agonizado por você. Não sei como lidar. Não sei como sanar sua caída. Não tenho certeza se minha corda vai tirar-lhe do poço. Talvez algum dia, se restar tempo, alguém consiga a tirar dessa enrascada. Espero que sobreviva. Aguente firme e se eu não voltar, ainda assim, pela última vez, adeus.
~Dime
Espero que tenham gostado!




Comentários