Conto: Um homem que eu beijaria
- Dime

- 30 de mai. de 2020
- 11 min de leitura
Atualizado: 19 de jun. de 2020
Olá, pessoa! Trago mais um conto meu para vocês.
Um homem que eu beijaria
Diego Mendes (Dimecitou)
Foi difícil esperar a última aula acabar devido a minha ansiedade de ir correndo para a biblioteca. Eu teria que ser mais ágil do que a Isabela do primeiro ano se eu quisesse ser o primeiro a dar uma olhada nos novos livros que chegaram no meio dessa manhã. Da janela da minha sala, eu pude ver o caminhão descarregar as caixetas. E Isabela, provavelmente, também devia ter visto, uma vez que ela também senta na fileira da janela na sala da frente. Podia parecer paranoia nossa, mas realmente nos importávamos com isso. Livros eram a nossa paixão e a sensação de ler o novo nos inspirava a ir o mais rápido possível para o melhor lugar da escola. Assim que o sinal soou, eu não me importei com quem estava em minha frente e corri direto para o primeiro andar.
Quando cheguei à biblioteca, avistei as caixas empilhadas para todos os cantos. A senhorita Rangel estava com uma cara amarrada por trás daqueles pequenos óculos redondos. Seus cabelos já brancos estavam levemente desarrumados e sua xícara de café, provavelmente, estaria cheia. Dei uma analisada rápida pelo recinto e não encontrei vestígios de Isabela. Eu fui o primeiro.
Sorri.
— Eu não sorriria se fosse você — disse a senhorita Rangel. — Eu sei que parecem tentadores esses livros novos, mas, não poderá levá-los até que eu catalogue todos.
— Isso não vai ser problema. Eu vou escolher só um. Eu espero você o catalogar para mim — disse esboçando outro sorriso.
— Você não ouviu o que eu disse? Não poderá levar nenhum até que eu catalogue TODOS.
— O quê? — disse abaixado os ombros.
— Não fará diferença eu catalogar o que você quer levar. Ele não pode sair daqui sem todos os outros estarem catalogados. Não me olhe assim. Foi ordem do diretor.
— Tudo bem. Eu consigo superar essa. Quando você acha que conseguirá catalogar tudo?
— Umas duas semanas, se não houver imprevistos.
— Duas semanas? — disse incrédulo
— Posso adiantar o processo se me ajudar. Eu adoraria a sua ajuda. Prefiro você à aquela menina do primeiro ano. Ainda bem que ela foi embora.
Deixei os ombros caírem novamente. Então Isabela chegou primeiro.
Analisei mais uma vez o recinto. Olhei no meu relógio as horas e tentei buscar na memória se eu teria algo para fazer hoje à tarde que fosse importante.
— Não tenho nada para hoje — murmurei.
— O que disse? — Perguntou ela.
— Eu posso te ajudar. Bom, por onde eu começo?
Eu sabia que aquilo poderia me dar horas complementares no meu currículo escolar, mas eu não sabia que eu poderia me divertir tanto. A senhorita Rangel me fez rir pelo menos a cada dois minutos com seus comentários mal-humorados sobre os alunos da escola. Eu estava tirando alguns livros de uma das caixetas enquanto eu escutava suas histórias inéditas.
Olhei para sua figura quando percebi que ela havia parado de falar. Levantando o olhar, foquei em um garoto de pé de frente para o balcão da senhorita Rangel. Sua cara não demostrava prazer de estar ali. Ele se aproximou dela e murmurou algo que não consegui entender. Aquele garoto não me era estranho. Ele não é o....
Abri o livro que estava em minhas mãos e fingir ler para disfarçar quando seus olhos pousaram em mim.
..... Guilherme? Sim, o garoto do time de vôlei que foi proibido de jogar no último jogo devido a comportamentos agressivos.
— Você veio em uma excelente hora, meu jovem rapaz. Olha que tanto de livros que temos que catalogar. Sorte a minha que aquele belo rapaz está a me ajudar.
Guilherme olhou para mim mais uma vez. Dessa vez, encarei seu olhar.
— Miguel, temos mais um ajudante! Hoje é meu dia de sorte — disse a Senhorita Rangel entre risadinhas. — Arrume algo para ele fazer aí atrás.
— Tudo bem! — disse a respondendo.
Guilherme caminhou em minha direção. Eu estava no fundo da biblioteca, então demorou alguns segundos para ele vir até mim. Segundos esses, necessários o suficiente para me fazer reparar em sua aparência.
Eu já o vira algumas vezes pelos corredores e nos jogos da escola, mas ele nunca me chamara a atenção. Nunca estive em uma situação que eu pudesse repará-lo de frente. Talvez seja por isso que não pude evitar de analisá-lo. Começando por seus cabelos, se pareciam com os meus. Negros, curtos, lisos. Não deu tempo de reparar nos traços do rosto, mas foi inevitável olhar aqueles olhos castanhos, sustentados por uma expressão natural de severidade. Aquilo dava um charme para ele, ainda mais com aquele andar estiloso, típico de pessoas como ele, do time de vôlei. O que o diferenciava do resto do pessoal do time era sua altura. Ele não era tão alto como os outros jogadores, mas ainda assim, ele é mais alto do que eu. Seu corpo era atlético e não duvido que provém de algumas idas à academia semanalmente. Quando ele chegou perto de mim, meus olhos já estavam em seus tênis. Voltei a olhar para cima e encarei aqueles olhos castanhos mais de perto.
Meu primeiro pensamento foi "Está aí um homem que eu beijaria de boa, caso eu gostasse de beijar homens". Na verdade, não é que eu não goste. Eu só nunca beijei um garoto. E a ideia de beijar um vinha perpetuando minha mente nos últimos anos. Sem perceber, eu me deparei com o mesmo conflito que sempre tenho diante de um homem que eu considero bonito. Será que eu sou? Quer dizer, será que eu gosto mesmo de homem? Será que essa vontade de beijar um menino é só um desejo maluco ou será que eu realmente sou gay? Eu gosto de beijar mulheres, sim, isso é um fato. Mas, eu não descarto a possibilidade de beijar um homem. O que eu sou? Bissexual? Mas eu nunca beijei um homem... Como posso ter certeza do que sou?
Como sempre, eu nunca chego à uma conclusão. Minha mente vaga por pensamentos assim todas as vezes que acho um homem que eu beijaria de boa. Algo dentro de mim está confuso em relação a isso tudo. Eu não sei o que sou e muito menos entendo o que sinto.
Levantei meus óculos com o indicador quando ele estendeu a mão para mim.
— Eu sou o Guilherme. Espero poder te ajudar.
Deixei escapar uma risada um tanto irônica e incrédula.
— O que foi? — Perguntou ele desconcertado.
— Não sabia que os garotos do time de vôlei pudessem ser tão educados.
— Somos educados com quem nos agrada.
— Então, eu agrado você? — repliquei ríspido. Quando percebi, já havia perguntado.
— Não. Eu só não quero aumentar a minha detenção. — Respondeu vagamente.
— Quanta consideração.... — murmurei.
— O que disse?
— Vamos desempacotar aquela coleção — disse apontando para uma caixeta perto de um dos sofás, mudando de assunto, antes que eu levasse um soco no nariz também.
O garoto não era de falar muito. Pelo menos, não comigo. Vinte minutos havia se passado desde que Guilherme começou a me ajudar a tirar o plástico dos livros novos. Era notável pela sua expressão de ódio que ele não estava nem um pouco contente em fazer aquele ofício. Eu estava em pé, diante de uma mesa, na qual eu depositava os livros que desempacotava, enquanto Guilherme estava sentado ao chão, ao lado das caixetas. Uma vez ou outra, eu olhava de soslaio para ele. Em todas as vezes, eu o peguei olhando para o relógio. Deveria ser uma tortura para ele.
Mais alguns minutos se passaram de completo silêncio. Minha língua mal se continua em minha boca. Eu estava doido para começar a falar e comentar sobre aqueles livros, mas poderia ser inútil, uma vez que o pessoal do time de vôlei da escola não é chegado em um livro. Eu poderia falar e falar e ele não entenderia nada, ou simplesmente não se interessaria. Na verdade, eu me mantinha calado para evitar voltar para a casa com um nariz sangrando, mas tudo bem. Eu aguentaria ficar calado.
Eu nunca conversei antes com esse menino. Eu poderia ser amigável e tentar uma aproximação para nos conhecermos melhor, mas a cara zangada dele não favorecia em nada. Confesso que eu estou com medo de iniciar uma conversa. Eu sou do grupo dos intelectuais da escola, e assim como a maioria das pessoas pensam, não nos socializamos com os jogadores. Não nos leve a mal, mas temos alguns motivos. Primeiro que eles são mais altos e mais fortes que nós. Nos anos iniciais do fundamental, eles sempre batiam em nós e roubavam nossos lanches. Esse trauma está enraizado na nossa cultura escolar. Segundo, que eles também não vão com a cara da gente. Eles não nos acham legais o suficiente para andar com eles. Entrementes, eu não me importo muito com essa separação clara que existe na minha escola, mais ainda assim, eu estava incerto se deveria conversar com Guilherme ou não.
Mais uma vez, me peguei olhando de soslaio para ele. Eu lutava comigo mesmo para iniciar uma conversa. "Diga oi, Miguel". "Não, não diga". "O que que custa puxar conversa?" "Ele vai te bater".
Respirei fundo. Eu não aguentaria ficar calado por mais tempo. Sempre fui tachado como uma maritaca ambulante. Minha necessidade geminiana de expressar em palavras o que penso sempre foi maior do que minha capacidade de esperar momentos oportunos. Eu sou um falante compulsivo e ficar calado estava me deixando um pouco inquieto. Meu pé direito já começava a bater no chão em um ritmo aleatório. Eu já começava a virar a cabaça em direção a Guilherme a cada minuto, minha voz lutava para sair e meus pensamentos já estavam trasbordando informações que precisava compartilhar sobre aqueles livros maravilhosos. Olhei para a Senhorita Rangel e ela estava distante demais para mantermos um diálogo saudável e compreensível, então, não tive outra escolha a não ser falar com aquele cara mal-humorado sentado ao chão, tirando o plástico dos livros como se estivesse esquartejando um animal.
— Um amor desenhado pelo fogo. Um belo título para um livro, não acha? Quer dizer, amar é isso. Fogo. Ou você se aquece com ele, ou você se queima com ele. Está aí uma palavra que define bem o amor.
Escutar o som da minha voz fez com que meu pé parasse de se mover. Minha inquietude desapareceu. Soltar aquelas palavras era como se eu me livrasse de uma carga pesada em minhas costas. Entrementes, pareceu que eu estava apenas falando sozinho, pois meu interlocutor, não respondeu a minha fala. E ficou por isso mesmo. Ele não pronunciou nem um ruído sequer.
Tentei mais uma vez.
— Eu estava esperando muito por esse livro. Dizem que o escritor ficou três anos em uma ilha deserta para escrevê-lo. Quero só ver o que tem nesse livro, ou melhor ler.
Mais uma vez, senti como se eu estivesse falado para uma pedra. Olhei de soslaio novamente para Guilherme. Ele estava na mesma posição, ainda arrancando o plástico selvagemente. Talvez, ele não tivesse se tocado que eu disse aqueles comentários na esperança de que ele replicasse, que ele falasse alguma coisa. Ele deve estar achando que falo sozinho para passar o tempo.
Até que não é algo ruim se for analisar desse ponto. Eu posso falar à vontade, tirando assim o meu pânico de ficar calado, e ele vai simplesmente achar que estou a falar sozinho. Pode funcionar. Eu não preciso de alguém respondendo as minhas considerações para continuar falando. Eu só preciso falar. E isso para mim já era o suficiente.
— Ah, esse aqui também deve ser maravilhoso! — disse segurando um livro com uma capa interessante. — Olha como a capa é intrigante, nos fazendo abrir o livro de imediato. Penso que deve ser um trabalho bem elaborado. Será que os escritores escolhem as capas dos livros, ou são os editores que escolhem? Não sei. Seria um bom tópico para pesquisar.
Deixei o livro na mesa e coloquei a mão dentro da caixeta para pegar o próximo, mas nada vinha em minha mão. Olhei dentro da caixeta e vi que havia apenas mais um. Era um livro de capa dura. Totalmente preto com apenas uma palavra escrita no meio dele.
— Tempo.
Retirei o plástico do livro e o abri.
— O que você sabe sobre o tempo? — li a única frase na primeira página. Parei para pensar — Complexa essa pergunta. Bem, o tempo. O que seria o tempo? Ele realmente existe?
— Certa vez li sobre a passagem do tempo. Uma ilusão perfeita. As horas, os dias, os anos, tudo faz você acreditar que o tempo passa. E essa passagem de tempo me causa certo incômodo. Nem sempre o tempo me ilude como eu gostaria que iludisse. As pessoas costumam perceber o tempo de acordo com as suas emoções. Se você está se divertindo, o tempo "voa", se você está assustado, o tempo "para", e se você está entediado, assim como eu estou agora, sentado no chão de uma biblioteca retirando o plástico dos livros, o tempo "não passa".
O som daquela voz grossa e marcante preencheu toda a sala. Olhei surpreso para a figura de Guilherme sentado ao chão. Era difícil acreditar que foi ele mesmo quem pronunciou aquelas palavras. Fiquei extremamente perplexo com a sua resposta e ainda mais com seu ato de me responder. Não perdi a oportunidade para replicar.
— Se o tempo é só uma ilusão, então, poderíamos mexer nele, não é verdade? Tipo, digo mexer no sentido de alterar a quantidade de semanas e meses. Você já parou para pensar como seria interessante se acrescentássemos mais um dia na semana?
— Se acrescentarmos mais um dia na semana, com certeza seria ruim.
— Por quê?
— Mais um dia para estudarmos e trabalharmos.
— Eu não pensei em criar mais um dia da semana nesse sentido. Eu criaria um dia entre o sábado e o domingo. Um dia de descanso. Não acha injusto trabalhar cinco dias para descansar apenas em dois? Olha que há pessoas que trabalham seis e descansam um.
— O universo não é feito de justiças.
— Realmente — concordei.
— Mas seria bom se fosse — pela primeira vez, aquele menino me encarou fundo nos olhos, o que provocou em mim uma sensação nova e estranha.
— Eu trabalho com exemplo — replique tentando me recompor da intensidade daquele olhar.
— Pense bem. Só vivemos injustiças por que queremos. Se todas as pessoas resolvessem se unir. Digo, uma união mundial. Se todas as pessoas se ajudassem, se todas as pessoas parassem de olhar apenas para o próprio umbigo, se todas se esforçassem para promover o bem. Se todos esquecessem esse lance de dinheiro. Se todos ajudassem a cultivar e a produzir alimentos, a construir casas, fabricar objetos para sobrevivência, a curar doenças por simplesmente quererem ajudar, o planeta não estaria nessa crise como está agora.
— O dinheiro nos força a ser pessoas limitadas. Poderíamos ser, não só uma sociedade, como uma planeta avançado — complementei.
— É disso que eu estou falando! As pessoas se atentam demais ao dinheiro. Se fosse as ações boas que movessem o mundo, ele não estaria como está agora — enquanto ele falava eu não conseguia parar de olhar os seus lábios, e para a forma como ele movia as mãos, e no brilho que o olhos dele emitiam. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, mas cada detalhe daquele menino despertava em mim sensações que me faziam bater naquela mesma tecla colorida.
E assim, a tempo ilusório dos nossos relógios passaram. Minha fala só foi interrompida pela voz estridente da Senhorita Rangel gritando lá do balcão que o horário de detenção do Guilherme havia acabado.
Guilherme olhou para o relógio surpreso.
— Parece que o jogo virou, não é mesmo? O tempo te iludiu da maneira como você gostaria.
— Graças a sua falação, sim.
— Falar demais nem sempre é um problema.
— Ainda bem que você falou sobre coisas interessantes — disse ele colocando sua mão em meus ombros. O calor daquela mãos formigou os meus pés.
— Que bom que gostou. Quando você quiser conversar sobre o universo e tudo mais, é só me convocar.
— Que tal voltar amanhã? Eu terei que cumprir detenção aqui mesmo.
Fui atingido por esse convite. Umas borboletas começaram a se revirarem no meu estômago. O que aquilo significava? Era só um convite como qualquer outro. Por que isso me incomodou? Será mesmo que essa sensação é incômodo ou seria apenas curiosidade? Mas, curiosidade de que? Vamos, Miguel, admita... Admita que você está se sentindo atraído por um... isso mesmo... um menino. Por que é tão difícil de admitir... Talvez porque meus pais são muito religiosos, talvez porque as pessoas conservadoras, as quais fazem parte da minha família enxergam isso de uma forma ruim, ou será por medo de ser julgado por todos na escola... Encarei os olhos de Guilherme por breves segundos antes de responder.
— Amanhã? Bem, acho que pode ser uma boa ideia.
Uma mistura de curiosidade com atração envolveu os meus pensamentos. O que estava acontecendo comigo? Eu aceitei o convite porque no fundo eu quero passar mais tempo com Guilherme. Eu sei disso. Sei que estou atraído por ele.
— Então, até mais — disse ele esboçando um sorriso.
— Até.
Segui Guilherme com os olhos até ele sair da biblioteca. Ainda estava perplexo com a conversa que tivemos. Era difícil acreditar que alguém do time de vôlei possuía um arcabouço teórico sobre as coisas aleatórias cujo eu gostava de conversar.
Suspirei.
Também estava perplexo com a descoberta que havia feito. Com as verdades que gostei de admitir para mim mesmo.
E novamente, aquele pensamento perpassou por minha mente.
Está aí um homem que eu beijaria, não porque ele era do time de vôlei, ou bonito ou porque está “de boa”, mas sim porque eu queria, porque eu sentia uma atração real por ele, porque algo em mim me dizia que era isso que eu queria fazer e está tudo bem em admitir que eu tenho esse desejo. Eu quero beijar um menino sim, e eu estava começando a perceber que não há problema nenhum em desejar isso.
(Comenta aqui se vocês querem a continução desse conto, se vocês querem o dia seguinte da conversa entre Guilherme e Miguel)



Amei o Conto. Esperando continuação.