Conto de Natal: O gerente
- Dime

- 24 de dez. de 2019
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O GERENTE
Diego Mendes (Dime)
Eu estava ficando nervoso.
Olhei em minha volta e a aglomeração de pessoas fazia com que eu só desejasse uma coisa: sair logo dali. Eu não entendo o porquê de as pessoas deixarem para comprar as coisas do natal faltando menos de 12 horas para tal evento. Meus pais eram uma dessas pessoas que eu juro que tentava entender. O supermercado estava lotado de pessoas assim como os meus pais e eu me irritava a cada segundo que eu passava ali dentro, pois, a cada pedaço de tempo que se passava, a chance de eu dar de cara com o gerente daquele lugar aumentava.
Eu estava no corredor das massas, decidindo com a minha mãe se iríamos fazer lasanha ou não.
— Você é o cozinheiro, você que decide.
E esse era o motivo pelo qual eu não pude deixar de vir. Claro que seria muito mais fácil não topar com o gerente, se eu estivesse ficado em casa, na minha doce zona de conforto.
— Vai ser a lasanha mesmo. Pegue aquele macarrão ali para mim e vamos acabar logo com isso — disse eu olhando para os lados, à procura do que eu queria ver, para assim, tentar não ser visto.
É claro que eu poderia ter feito uma lista, planejado tudo, e deixado com os meus pais todo o esquema das compras. Claro que eu poderia ter feito isso...
— Atenção, colaborador, João Paulo, por favor, comparecer a recepção. Colaborador, João Paulo. — Meu coração e minha alma gelaram quando o nome foi pronunciado pela moça da recepção do guarda volumes que reverberou pelas caixinhas de auto falante espalhadas pelo supermercado. João Paulo, era o nome dele. O gerente.
Larguei o carrinho ali mesmo e corri para mudar de corredor. Olhei para todos os lados, na tentativa de identificar dentre aqueles diversos rostos, o rosto dele. Os funcionários do supermercado usavam um uniforme azul, porém o dele, era diferente. Ele era diferente. Vi um cara alto, de camisa social branca, com um crachá pendurado no pescoço virar o corredor dos doces.
Eu poderia ter feito uma lista, eu poderia. Eu poderia ter ficado em casa, eu poderia...
Corri para o corredor do lado em que ele acabara de virar. Estávamos a um corredor de distância, mas era como se eu pudesse sentir o seu cheiro. O cheiro do perfume que eu o presenteei no Natal passado.
Me arrisquei em virar o corredor que ele estava. Agora eu o via de costas. Eu torcia para que ele não virasse para trás, mas ao mesmo tempo eu torcia para que alguém atrás de mim o chamasse. Só para que ele tivesse outro alvo para qual olhar, e assim, eu ganhar alguns segundos para olhar aqueles olhos antes que eles olhassem para mim.
Meu coração acelerava, e somente uma coisa se passava na minha cabeça: Eu poderia ter feito uma lista, eu poderia ter deixado que os meus pais viessem sozinhos. Mas havia alguma coisa que me impediu de fazer isso. Sim. Havia. Ele. O gerente.
João Paulo seguiu reto todo o corredor sem ao menos virar para trás. Eu ainda não havia decidido se aquilo era bom ou ruim. Eu queria, mas, não queria. Era ele, o gerente, mas, para além disse, era ele, João Paulo.
Topei com minha mãe no corredor seguinte, perto de uma árvore de natal feita com latas de milho verde, me perguntando se uma lata seria o suficiente.
— Não.
Uma não seria o suficiente. Talvez duas, três, quatro, todas. Talvez se eu as derrubassem no chão, eu conseguiria a atenção do Gerente. Talvez ele aparecesse para brigar comigo e eu brigaria com ele também. Talvez, com a desculpa das latas de milho verde, eu possa falar tudo o que eu não havia dito antes. Talvez assim, eu me sentisse melhor e o ano que vem eu realmente pudesse fazer uma lista e deixar com os meus pais todo esse lance de compras de natal.
— Duas então? — perguntou a minha mãe.
— Sim. Respondi pegando cuidadosamente duas latinhas da árvore de natal de latas milho verde.
Após mais alguns minutos, conseguimos pegar tudo que precisávamos. Já estava na hora de partir e acabar logo com isso. Fomos para o caixa e eu fiquei na porta do supermercado, olhando o trânsito caótico de véspera de natal lá fora.
— Vítor?
Gelei.
Meu nome fora pronunciado por uma voz atrás de mim acompanhado de uma mão em meu ombro. Olhei para o meu pai passando as compras no caixa, para minha mãe ao meu lado, depois para árvore de natal de milho verde lá no fundo, depois para mão em meus ombros, antes de me virar.
— Caio, oi.
Era um conhecido meu. Estudamos juntos no ensino médio. Ele me cumprimentou e seguiu rumo à parte das frutas e verduras do supermercado. O acompanhei com os olhos. Não sei porque eu fiz isso, mas eu mantive os meus olhos nele.
Até que então ele parou e foi cumprimentado por um funcionário de camisa social branca com um crachá pendurado no pescoço. Ele. O gerente.
Tudo aconteceu muito rápido depois disso. Eu olhei para os lados e não tinha onde me esconder. Nem tinha reflexos rápidos o suficiente para fazer isso. Foi a conta de ver Caio gesticulado com as mãos, levantando o braço e apontando na mina direção, para que o rosto do gerente também se virasse.
Fui apontado.
Descoberto.
Visualizado.
Agora eu precisava responder.
O roteiro para essa situação que eu editava todas as noites na minha cabeça antes de dormir veio à tona. Era agora ou nunca.
O gerente se moveu. Começou a caminhar em minha direção. Minha mãe me cutucou, pois ela havia percebido a situação. Ele se aproximava cada vez mais e mais.
Havia muitas pessoas no supermercado, se ele não fosse alto, talvez eu já o teria perdido de vista e seria impossível calcular quantos segundos ainda eu tinha antes de ele chegar até mim.
Dez e ele já estaria aqui.
Nove e ele sorriu.
Oito e eu não sabia reagir àquele sorriso.
Sete e minhas pernas tremiam.
Seis e o meu coração acelerou.
Cinco e eu tentei lembrar do roteiro.
Quatro e eu sabia que eu deveria ter feito a lista.
Três e eu também sabia o motivo para não ter a feito.
Dois e ele chegou.
Um e ele parou.
— Feliz Natal, Vitor. — Ele disse sem sair do personagem de gerente.
— Feliz Natal, João Paulo. — disse de forma seca, sem ainda engolir aquele fajuto feliz natal dele. Eu estava pronto para descarregar todos os motivos pelos quais eu não fizera a droga da lista quando escuto das caixinhas espalhadas pelo supermercado:
— Atenção, colaborador, João Paulo, por favor, comparecer a recepção com urgência. Colaborador, João Paulo.
Ele revirou os olhos e se apressou em ir embora. Meu pai se aproximou com as comprar dentro de um carrinho e seguimos direto para o nosso carro no estacionamento, sem ao menos olhar para trás.
Fui embora com o roteiro ainda fresco na cabeça, mas sem remorso de ainda não o ter entregado. Quem sabe no ano que vem.



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